quelque chose a changé ce soir -
la lune est morte:
le langueur pâle de sa lueur
ne tachere plus le ciel
acordei num fervor poético
de vozes que me enchiam a cabeça,
mas estou só
bereft of a warmth I held so near
all but imperceptible
as the soft hum that rings my eardrum
and yet so very dear
mas que breve foi este luar!
la lune est morte ce soir:
au revoir mon amour...
Saúl Villalobos
Wednesday, March 14, 2007
28.
no fundamentalismo do cimento humedecido entre o laranja do tijolo
se une a formação da decadência que há em mim
com a selecção virtual das relações de mim para ti
mas é neste respiro doentio de subúrbio
que as minhas chagas choram negras e anónimas
como se os vazios das casas fossem os silêncios das palavras
e os rios de sangue que me atravessam as histórias que se me escapam
dos filhos que se perdem na instabilidade e na celeridade
da tribalização forçada dos inconstantes;
constrói os gritos desta caixa óssea de ânsias discursivas
como exorcismos de desinências gastas de passado
onde a gratificação da crítica criou raízes de dogma
se une a formação da decadência que há em mim
com a selecção virtual das relações de mim para ti
mas é neste respiro doentio de subúrbio
que as minhas chagas choram negras e anónimas
como se os vazios das casas fossem os silêncios das palavras
e os rios de sangue que me atravessam as histórias que se me escapam
dos filhos que se perdem na instabilidade e na celeridade
da tribalização forçada dos inconstantes;
constrói os gritos desta caixa óssea de ânsias discursivas
como exorcismos de desinências gastas de passado
onde a gratificação da crítica criou raízes de dogma
[these things transcend me in rivers of blood soaking me through
and embers of sank vessels weight on my tired tongue
like words that are no longer used…]
and embers of sank vessels weight on my tired tongue
like words that are no longer used…]
e eu vi-te em todo o teu esplendor…
Saúl Villalobos
27.
o sangue espesso escorre para a fina areia
formando uma papa escura nesta praia que não é minha
o mar lambe-me os pés e eu alimento-o de lágrimas
esse sangue lusitano de uma pátria que não é minha
sou poeta soldado que pilho metro, sílaba e sintaxe
de uma língua traiçoeira que não é minha
desta ocidental praia saí num sangrar constante
infectado por um veneno lusitano chamado saudade
e de saudade marquei uma cicatriz na minha alma
por cada terra onde passei e me vi português
Saúl Villalobos
formando uma papa escura nesta praia que não é minha
o mar lambe-me os pés e eu alimento-o de lágrimas
esse sangue lusitano de uma pátria que não é minha
sou poeta soldado que pilho metro, sílaba e sintaxe
de uma língua traiçoeira que não é minha
desta ocidental praia saí num sangrar constante
infectado por um veneno lusitano chamado saudade
e de saudade marquei uma cicatriz na minha alma
por cada terra onde passei e me vi português
Saúl Villalobos
26.
e perdermo-nos no ardor dos nossos sexos...
caía no teu líquido olhar incendiado de desejo
e entre o estremecer do meu coração e as palpitações do teu
despertava a minha sofreguidão de macho
voraz pelo teu mistério de fêmea;
as nossas bocas devoravam-se com a urgência do sangue
e palmilhavam pescoço, ombro, seio, ventre
em alvoraçado abandono.
o sabor da minha saliva na tua pele
e sentia-te a ferver enquanto te fodia com os dedos
para depois nos ritmos sincopados do jazz
nos esquecermos dos nossos corpos
Saúl Villalobos
caía no teu líquido olhar incendiado de desejo
e entre o estremecer do meu coração e as palpitações do teu
despertava a minha sofreguidão de macho
voraz pelo teu mistério de fêmea;
as nossas bocas devoravam-se com a urgência do sangue
e palmilhavam pescoço, ombro, seio, ventre
em alvoraçado abandono.
o sabor da minha saliva na tua pele
e sentia-te a ferver enquanto te fodia com os dedos
para depois nos ritmos sincopados do jazz
nos esquecermos dos nossos corpos
Saúl Villalobos
25.
semear o torpor e a corrupção
no meu corpo e na minha mente
com vocábulos familiares:
amor
amor
amor
amor
coágulos de dor que mancham a brancura do papel
quebram a afasia da urbe em espirais de distância e de intimidade:
Saúl Villalobos
no meu corpo e na minha mente
com vocábulos familiares:
amor
amor
amor
amor
coágulos de dor que mancham a brancura do papel
quebram a afasia da urbe em espirais de distância e de intimidade:
“que me lembre do sabor da tua carne, do gosto da tua língua,
da irregularidade da tua respiração e do calor do teu desejo; mas que olvide tudo o mais até que nem uma maldita memória sejas”
Saúl Villalobos
23.
vazia definha a narrativa pobre
de quem chora sem saber porquê
(procura-se e não se encontra)
que lua tão triste
perdida na elipse do céu
geme prenha de luz
Saúl Villalobos
de quem chora sem saber porquê
(procura-se e não se encontra)
que lua tão triste
perdida na elipse do céu
geme prenha de luz
Saúl Villalobos
22.
o advérbio está a morrer na boca dos poetas
conforme o mundo mecanizado que perece –
a sua precisão fere as ambiguidades do presente
e ele é pedra no seu cansaço de séculos.
mas os substantivos cospem a sua crueza e rudeza
de sangue e de suor empastados no tecido dos dias:
atropelam-se na fúria cega da sua vã autoridade
nos comboios, nos cafés, nos passeios, nas montras
em cubículos esquecidos no interior dos edifícios,
nos cabos e nos canos por baixo das estradas e das ruas,
nos ângulos rectos, no vidro, no alcatrão
o advérbio morre na moagem da incerteza
Saúl Villalobos
conforme o mundo mecanizado que perece –
a sua precisão fere as ambiguidades do presente
e ele é pedra no seu cansaço de séculos.
mas os substantivos cospem a sua crueza e rudeza
de sangue e de suor empastados no tecido dos dias:
atropelam-se na fúria cega da sua vã autoridade
nos comboios, nos cafés, nos passeios, nas montras
em cubículos esquecidos no interior dos edifícios,
nos cabos e nos canos por baixo das estradas e das ruas,
nos ângulos rectos, no vidro, no alcatrão
o advérbio morre na moagem da incerteza
Saúl Villalobos
21.
as térmitas também hibernam
nos seus casulos de pele e osso
(
o mar estava talvez agitado
e o dia certamente frio;
quem diria que o mar tem em si
a música do trovão,
o bruá de uma multidão
e a poesia de um murmúrio.
aqui no cimo desta falésia
a olhar os astros e as estações e o tempo –
aqui a beleza é tão bela que magoa
mas a lembrança do teu perfume
quebrou esta paz silenciosa
e lembrou-me da vida.
)
…para quê palavras?
entre o céu e o inferno:
[destroyed. destroyed. destroyed.]
Saúl Villalobos
nos seus casulos de pele e osso
(
o mar estava talvez agitado
e o dia certamente frio;
quem diria que o mar tem em si
a música do trovão,
o bruá de uma multidão
e a poesia de um murmúrio.
aqui no cimo desta falésia
a olhar os astros e as estações e o tempo –
aqui a beleza é tão bela que magoa
mas a lembrança do teu perfume
quebrou esta paz silenciosa
e lembrou-me da vida.
)
…para quê palavras?
entre o céu e o inferno:
[destroyed. destroyed. destroyed.]
Saúl Villalobos
20.
eu
estou aqui
algures
perdido
na intenção deste texto
agora ontem
a dizer
que apenas serei
aquilo que aqui lerem.
Saúl Villalobos
19.
desamarrar a língua e desatar a chorar
numa linguagem convulsa de simbologia
e depois destruir essas lacrimais convenções
e criar outra vez
e esperar e destruir
atar a língua e amarrar o choro
numa mudez surda de passado
e procurar fortalezas e destruí-lase criar outra vez
Saúl Villalobos
numa linguagem convulsa de simbologia
e depois destruir essas lacrimais convenções
e criar outra vez
e esperar e destruir
atar a língua e amarrar o choro
numa mudez surda de passado
e procurar fortalezas e destruí-lase criar outra vez
Saúl Villalobos
18.
trito. eu e tu
no fundo do recife de corais esqueletos de sorrisos
espinhas de palavras escamas de eus outros
trito. eu e tu
lágrimas através de uma escotilha.
trito. eu e tu
trito.
trito.
trito.
Saúl Villalobos
no fundo do recife de corais esqueletos de sorrisos
espinhas de palavras escamas de eus outros
trito. eu e tu
lágrimas através de uma escotilha.
trito. eu e tu
trito.
trito.
trito.
Saúl Villalobos
17.
impulso de subirmos a todos os telhados de Lisboa
mas na verdade cairmos aos esgotos por baixo da cidade
erigiremos torres de aço e vidro que lhe recortarão a silhueta à beira-rio
para depois nos ferirmos na aspereza do alcatrão e do sol.
numa trajectória paradoxal e destrutiva
ratificaremos o nosso império de nadas
onde as portas que abrirmos irão estar muradas.
riremos nos espinhos da inveja e no fel do ciúme
mas secretamente regozijar-nos-emos na mesquinhez
fascinados pela refulgência fátua do ego.
e à noite nossos corpos entorpecidos de anestésicos
iniciaremos a sedição com cravos e canapés
e dançaremos até de madrugada
ao despertar do Tejo em dourados e carmins.
Saúl Villalobos
mas na verdade cairmos aos esgotos por baixo da cidade
erigiremos torres de aço e vidro que lhe recortarão a silhueta à beira-rio
para depois nos ferirmos na aspereza do alcatrão e do sol.
numa trajectória paradoxal e destrutiva
ratificaremos o nosso império de nadas
onde as portas que abrirmos irão estar muradas.
riremos nos espinhos da inveja e no fel do ciúme
mas secretamente regozijar-nos-emos na mesquinhez
fascinados pela refulgência fátua do ego.
e à noite nossos corpos entorpecidos de anestésicos
iniciaremos a sedição com cravos e canapés
e dançaremos até de madrugada
ao despertar do Tejo em dourados e carmins.
Saúl Villalobos
16.
experimento com este desejo residual
ciúme inveja tédio raiva ódio amor
dor volátil…
ciúme inveja tédio raiva ódio amor
dor volátil…
dá-me a tua mão que me apetece chorar no teu colo.
Saúl Villalobos
15.
sozinho a noite é mais sombria
e o mundo aperta-se pequenino
até onde alcança o olho turvo
o rumor negro e triste das águas
cerra-se à minha volta
turba de dedos sossegantes
o corpo pesado de chumbo flutua
e nas profundezas lúgubres
afunda-se em letárgica nostalgia
e as águas azuis de negro estão tão cheias de silêncio
(como numa sepultura)
Saúl Villalobos
e o mundo aperta-se pequenino
até onde alcança o olho turvo
o rumor negro e triste das águas
cerra-se à minha volta
turba de dedos sossegantes
o corpo pesado de chumbo flutua
e nas profundezas lúgubres
afunda-se em letárgica nostalgia
e as águas azuis de negro estão tão cheias de silêncio
(como numa sepultura)
Saúl Villalobos
14.
desce sobre os escombros desta carcaça humana
o pó radioactivo de uma guerra de remorsos
deitado sobre a brancura de uma neve de cocaína
num torpor morno de sonho e de esquecimento
os corpos vertem-se em espasmos de sangue
após uma valente surriada de pontos finais
e os olhos soturnos ensombram-se de negro
com uma seringa espetada na veia
segreda-me segredos neste doce coma
que o teu nome já o esqueci
entre o tremular da luz pálida das velas
a tua sombra libidinosa projecta suspiros de desejo
narcotizo as minhas pudicas intenções
e subjugo-te em delírios jaculatórios
poder é a destruição maciça das frágeis relações humanas
mas eu não exaspero no meu silêncio
(no teu sono os meus dedos procuram a tua garganta)
Saúl Villalobos
o pó radioactivo de uma guerra de remorsos
deitado sobre a brancura de uma neve de cocaína
num torpor morno de sonho e de esquecimento
os corpos vertem-se em espasmos de sangue
após uma valente surriada de pontos finais
e os olhos soturnos ensombram-se de negro
com uma seringa espetada na veia
segreda-me segredos neste doce coma
que o teu nome já o esqueci
entre o tremular da luz pálida das velas
a tua sombra libidinosa projecta suspiros de desejo
narcotizo as minhas pudicas intenções
e subjugo-te em delírios jaculatórios
poder é a destruição maciça das frágeis relações humanas
mas eu não exaspero no meu silêncio
(no teu sono os meus dedos procuram a tua garganta)
Saúl Villalobos
13.
cogumelo de veneno
na madre desta nuvem negra lufa uma sangria
e bradam os cancerígenos vagidos das crianças nunca nascidas
morrinha desagradável mas que facilmente se sacode do meu capote
por entre a volúpia lasciva se apagam estas pústulas lazarentas
de uma humanidade intoxicada que esquece e celebra
as palavras chovem débeis e fictícias
perdidas na polissemia do discurso
Oppenheimer
Los Alamos
plutónio-239
urânio-235
Enola Gay
Hiroxima
Nagasáqui
linguagem
holocausto
libertação
apocalipse
idealismo
genocídio
engenho
tragédia
trindade
ciência
1945
na madre desta nuvem negra lufa uma sangria
e bradam os cancerígenos vagidos das crianças nunca nascidas
morrinha desagradável mas que facilmente se sacode do meu capote
por entre a volúpia lasciva se apagam estas pústulas lazarentas
de uma humanidade intoxicada que esquece e celebra
as palavras chovem débeis e fictícias
perdidas na polissemia do discurso
Oppenheimer
Los Alamos
plutónio-239
urânio-235
Enola Gay
Hiroxima
Nagasáqui
linguagem
holocausto
libertação
apocalipse
idealismo
genocídio
engenho
tragédia
trindade
ciência
1945
Saúl Villalobos
12.
páginas virulentas de uma necessidade autofágica
com uma poesia que se consome e se cria
o lodo verde na agitação do mar
punhos rebatem de espuma
limos e algas as coroas de Neptuno
punho inoclasta da palavra
rebate as ondas verdes de chuva
ácidas como a uva verde
encarniça assim as fúrias de Neptuno
ao costear as tuas lembranças, amor
ávidas de espesso, negro, doce sangue
Saúl Villalobos
com uma poesia que se consome e se cria
o lodo verde na agitação do mar
punhos rebatem de espuma
limos e algas as coroas de Neptuno
punho inoclasta da palavra
rebate as ondas verdes de chuva
ácidas como a uva verde
encarniça assim as fúrias de Neptuno
ao costear as tuas lembranças, amor
ávidas de espesso, negro, doce sangue
Saúl Villalobos
10.
Desmanchar a autocracia da linguagem
que domina as relações dos eus com os mundos
como um deus que pinta a seu bel-prazer um mesmo quadro
duas vezes belo, duas vezes asfixiante de angústia
hoje a tela é talvez sublime:
um jardim potente de verdes
abraçado ao poste de iluminação um caixote
verde plástico à beira da estrada
é também o pinheiro manso e as folhas das árvores
viçosas nos seus verdes
a relva aparada da estação de comboios
nos seus azulejos lilás, azul e verde-mar
ziguezagueando em matiz esverdeada;
mais ao fundo velhas placas de plástico entre as varandas
na sua geometria verde-escura
e rasgadas por entre o negro das estradas mais além
sobressaem estreitas faixas de erva verde.
verde... verde... verde verde verde. sempre tudo verde.
esteve a chover, é certo;
e no cinzento da tarde há uma fina luminosidade
que pincela os verdes com um tom exuberante.
componho esta fotografia e a cidade semelhasse-me assim –
intemporalmente verde e inanimada.
Saúl Villalobos
que domina as relações dos eus com os mundos
como um deus que pinta a seu bel-prazer um mesmo quadro
duas vezes belo, duas vezes asfixiante de angústia
hoje a tela é talvez sublime:
um jardim potente de verdes
abraçado ao poste de iluminação um caixote
verde plástico à beira da estrada
é também o pinheiro manso e as folhas das árvores
viçosas nos seus verdes
a relva aparada da estação de comboios
nos seus azulejos lilás, azul e verde-mar
ziguezagueando em matiz esverdeada;
mais ao fundo velhas placas de plástico entre as varandas
na sua geometria verde-escura
e rasgadas por entre o negro das estradas mais além
sobressaem estreitas faixas de erva verde.
verde... verde... verde verde verde. sempre tudo verde.
esteve a chover, é certo;
e no cinzento da tarde há uma fina luminosidade
que pincela os verdes com um tom exuberante.
componho esta fotografia e a cidade semelhasse-me assim –
intemporalmente verde e inanimada.
Saúl Villalobos
9.
qual é a forma subjacente do meu desassossego?
o meu desassossego exala um odor a cânfora
e tem o apelo longínquo de águas profundas;
hesita no armistício frágil entre a carne e o espírito,
de cláusulas ilegíveis e determinações impossíveis,
e sepulta-se no engessar deste coração
numa epístola expressiva e impessoal.
qual é a forma subjacente deste meu desassossego
que peleja no breu inerte do desconhecido,
onde se escapam gritos surdos pelos poros da pele;
ele governa na obtusidade dos sentidos,
mas adormece na íris vítrea de um bêbado.
e perdidos ambos autor e intenção
nestes labirintos urbanos de infinitas leituras
qual é a forma subjacente do meu desassossego?
ele adivinha dispersos grãos de poeira cósmica,
esses átomos que se decompõem no celulóide
e que sobrevivem as exéquias do texto.
Saúl Villalobos
o meu desassossego exala um odor a cânfora
e tem o apelo longínquo de águas profundas;
hesita no armistício frágil entre a carne e o espírito,
de cláusulas ilegíveis e determinações impossíveis,
e sepulta-se no engessar deste coração
numa epístola expressiva e impessoal.
qual é a forma subjacente deste meu desassossego
que peleja no breu inerte do desconhecido,
onde se escapam gritos surdos pelos poros da pele;
ele governa na obtusidade dos sentidos,
mas adormece na íris vítrea de um bêbado.
e perdidos ambos autor e intenção
nestes labirintos urbanos de infinitas leituras
qual é a forma subjacente do meu desassossego?
ele adivinha dispersos grãos de poeira cósmica,
esses átomos que se decompõem no celulóide
e que sobrevivem as exéquias do texto.
Saúl Villalobos
8.
Asas desconhecidas de aves flutuam
um vale gasoso de cinzentos ameaça desabar sobre elas
em baixo, um guarda-chuva reluzente
sobre ele cai o perfume violeta de preciosas octanas
que omnipresente embriaga tudo em volta –
– a espinha ameaça quebrar-se-me com um surto de dor
tenho um gosto vermelho de sangue na boca e nos lábios
e uma pistola a tremer-me entre as mãos frias
o magnetismo do toque sedoso na pele escameada da víbora que me irá morder
é demasiado intenso. E morde-me:
um vale gasoso de cinzentos ameaça desabar sobre elas
em baixo, um guarda-chuva reluzente
sobre ele cai o perfume violeta de preciosas octanas
que omnipresente embriaga tudo em volta –
...[repara, sou eu, estendido na carpete, louco, feliz, a sufocar, o meu corpo apresenta-se-me como se estivesse a deslizar nas alturas, e nos meus olhos rebrilha um fogo intenso e quente, sinto-me o homem mais poderoso do mundo, sou o homem mais poderoso do mundo, louco, feliz, a sufocar, inocente que não sabe que vive aquele momento eternamente, para sempre]...
– a espinha ameaça quebrar-se-me com um surto de dor
tenho um gosto vermelho de sangue na boca e nos lábios
e uma pistola a tremer-me entre as mãos frias
o magnetismo do toque sedoso na pele escameada da víbora que me irá morder
é demasiado intenso. E morde-me:
...[Eis o teu perfume doce de um Inverno lavado por uma manhã primaveril, um campo de flores que me sufoca na sua fragrância, tesouro contido numa caixa de papelão. Eis as lágrimas que vertes para mim, promessa mais sincera de amor não há, e neste momento és minha e eu sou o homem mais poderoso do mundo, eternamente e para sempre]...
Saúl Villalobos
7.
amotinava-se um enxame de morfemas
sob a floresta capilar indomesticável
num banzé de palatais, centrais e velares
submersas na violência das oclusivas
enquanto eu deglutia os teus trejeitos embriagados
e aos soluços regurgitei um enunciado magoado
infectaste-me a carne
e escravizaste-me a língua
neste português que definha
subjugado em bits e bites,
inexorável na sua sintaxe
amordaçado na contemporaneidade;
colonizado pelo inglês,
deformado em mim.
[recoil]
[retreat]
[rebel]
Saúl Villalobos
sob a floresta capilar indomesticável
num banzé de palatais, centrais e velares
submersas na violência das oclusivas
enquanto eu deglutia os teus trejeitos embriagados
e aos soluços regurgitei um enunciado magoado
infectaste-me a carne
e escravizaste-me a língua
neste português que definha
subjugado em bits e bites,
inexorável na sua sintaxe
amordaçado na contemporaneidade;
colonizado pelo inglês,
deformado em mim.
[recoil]
[retreat]
[rebel]
Saúl Villalobos
6.
champanhe ouro a borbulhar
o esquecer é movimentos felinos de lascívia
luzes líquidas a verterem em corpos de escuridão
ouro a borbulhar. champanhe. pecado. divino. borboleta
As lagartas do tanque prensaram as borboletas
a neve branca agora manchada de um encarnado,
compota de morango
teus felinos movimentos de mentiras mentirosas
e a mulher-deusa dança no palco
esquecida das atrocidades na sua terra
dos cartuchos que jazem no chão
das cápsulas estilhaçadas das bombas
dos seus filhos esquálidos e famintos
e da neve tingida de compota de morango
aranhas chovem infinitas dos céus noivos de branco e cinza
para guerrearem de morte tirânicos gafanhotos que populam o cimento
e do dia de hoje nascerá uma nova humanidade de impalpável nevoeiro:
borboleta. divino. pecado. champanhe. ouro a borbulhar
Saúl Villalobos
o esquecer é movimentos felinos de lascívia
luzes líquidas a verterem em corpos de escuridão
ouro a borbulhar. champanhe. pecado. divino. borboleta
As lagartas do tanque prensaram as borboletas
a neve branca agora manchada de um encarnado,
compota de morango
teus felinos movimentos de mentiras mentirosas
e a mulher-deusa dança no palco
esquecida das atrocidades na sua terra
dos cartuchos que jazem no chão
das cápsulas estilhaçadas das bombas
dos seus filhos esquálidos e famintos
e da neve tingida de compota de morango
aranhas chovem infinitas dos céus noivos de branco e cinza
para guerrearem de morte tirânicos gafanhotos que populam o cimento
e do dia de hoje nascerá uma nova humanidade de impalpável nevoeiro:
borboleta. divino. pecado. champanhe. ouro a borbulhar
Saúl Villalobos
5.
uma cortina de chuva é vertida sobre a terra
e nas vidraças há lágrimas molhadas às centenas
espermatozóides esvaziados no útero frio e infecundo do vidro
(eu nem seco nem molhado)
um raiar de luz trespassa as lágrimas
assim a chorarem na indiferença das vidraças
devotas beatas a carpir os males do mundo
(eu nem seco nem molhado)
no útero frio e infecundo vejo as lágrimas
ínfimas gotas nos vidros quebrados da História
e seriam estrelas se no escuro se fizesse luz
(eu nem seco nem molhado)
Saúl Villalobos
e nas vidraças há lágrimas molhadas às centenas
espermatozóides esvaziados no útero frio e infecundo do vidro
(eu nem seco nem molhado)
um raiar de luz trespassa as lágrimas
assim a chorarem na indiferença das vidraças
devotas beatas a carpir os males do mundo
(eu nem seco nem molhado)
no útero frio e infecundo vejo as lágrimas
ínfimas gotas nos vidros quebrados da História
e seriam estrelas se no escuro se fizesse luz
(eu nem seco nem molhado)
Saúl Villalobos
4.
o tesão do texto acende-me os vocábulos
num prolixo delírio de formas e de sentidos,
de fones traduzidos em grafemas
num tropel de lexemas, que se balanceiam na ponta da língua:
num prolixo delírio de formas e de sentidos,
de fones traduzidos em grafemas
num tropel de lexemas, que se balanceiam na ponta da língua:
precipitam-se sobre a página
subversivos e irreverentes
vetustos ou singelos
alguns estremunhados
rebeldes
ávidos
serenos
subversivos e irreverentes
vetustos ou singelos
alguns estremunhados
rebeldes
ávidos
serenos
…desassossegados.
Saúl Villalobos
3.
tenho sede de palavras
que me ajudem a destruir esta linguagem que já não é refúgio
a dinâmica da frase
a estrutura da estrofe colocação do verso
a semântica do léxico a fonologia do som
o desenho do poema na página
                        tudo se me apresenta
enfim o corpo da linguagem
                        opaco e cerrado no labirinto do Minotauro
                        sem fio de Ariadne que me indique o caminho
se o verbo é a arma
eu estou desarmado;
um Teseu perdido na ilha de Creta; ferido de morte.
Saúl Villalobos
que me ajudem a destruir esta linguagem que já não é refúgio
a dinâmica da frase
a estrutura da estrofe colocação do verso
a semântica do léxico a fonologia do som
o desenho do poema na página
                        tudo se me apresenta
enfim o corpo da linguagem
                        opaco e cerrado no labirinto do Minotauro
                        sem fio de Ariadne que me indique o caminho
se o verbo é a arma
eu estou desarmado;
um Teseu perdido na ilha de Creta; ferido de morte.
Saúl Villalobos
2.
Um mês é uma eternidade excessivamente breve
                  breve para desmascarar a dor que me apoquenta
                  e excessivamente eterno para aceitar esta dor nada
um dia foi a efemeridade de uma vida
e um mês a eternidade excessivamente breve
            de um beijo para sempre cicatrizado nos meus lábios
            que foi todo saliva e nada sentimento
de ti nem um beijo
só uma voz de lágrimas indistintas
e uma mentira verdade de que me amaste
                         … apago as palavras com a mão.
Saúl Villalobos
                  breve para desmascarar a dor que me apoquenta
                  e excessivamente eterno para aceitar esta dor nada
um dia foi a efemeridade de uma vida
e um mês a eternidade excessivamente breve
            de um beijo para sempre cicatrizado nos meus lábios
            que foi todo saliva e nada sentimento
de ti nem um beijo
só uma voz de lágrimas indistintas
e uma mentira verdade de que me amaste
                         … apago as palavras com a mão.
Saúl Villalobos
1.
Risos amortalhados
chocalham o cortejo fúnebre
e seguem, passo ante passo,
silenciosamente orando no vazio dos tempos e do espaço e do nada,
coraçõezinhos entre o coração
do morto amortalhado naquela caixinha de pinho.
São fragmentos!
são fragmentos que escorrem a espaços,
lágrima ante lágrima,
curiosas orações de dor cristalizada que assim já não é dor
mas nada
e tudo e dor e nada
mas são fragmentos
que choram mas que se não mostram
e que ao rirem entristecem
de estúpida Dor mortificada! –
que já não és dor que já nem és nada
E assim o amaste!...
Saúl Villalobos
chocalham o cortejo fúnebre
e seguem, passo ante passo,
silenciosamente orando no vazio dos tempos e do espaço e do nada,
coraçõezinhos entre o coração
do morto amortalhado naquela caixinha de pinho.
São fragmentos!
são fragmentos que escorrem a espaços,
lágrima ante lágrima,
curiosas orações de dor cristalizada que assim já não é dor
mas nada
e tudo e dor e nada
mas são fragmentos
que choram mas que se não mostram
e que ao rirem entristecem
de estúpida Dor mortificada! –
que já não és dor que já nem és nada
E assim o amaste!...
Saúl Villalobos
Subscribe to:
Comments (Atom)