Wednesday, March 14, 2007

22.

o advérbio está a morrer na boca dos poetas
conforme o mundo mecanizado que perece –
a sua precisão fere as ambiguidades do presente
e ele é pedra no seu cansaço de séculos.

mas os substantivos cospem a sua crueza e rudeza
de sangue e de suor empastados no tecido dos dias:
atropelam-se na fúria cega da sua vã autoridade
nos comboios, nos cafés, nos passeios, nas montras
em cubículos esquecidos no interior dos edifícios,
nos cabos e nos canos por baixo das estradas e das ruas,
nos ângulos rectos, no vidro, no alcatrão

o advérbio morre na moagem da incerteza

Saúl Villalobos

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